20200314_Jundiaí - Grupo Matula Teatro; Alice Possani, Erika Cunha e Direção de Verônica Fabrini.

Difícil não escrever sobre o COMO SE FOSSE sem citar minha pesquisa de pós doutorado, realizada entre 2018 e 2020 no Instituto de Artes da UNICAMP, com bolsa de pesquisa PNPD-CAPES.
Após as múltiplas experiências pedagógicas e performáticas, foi o momento do retorno ao palco, carregando essa bagagem toda na criação de um espetáculo teatral, que acabou por se tornar a síntese de toda a experiência vivida. Não por acaso a direção é de minha supervisora do pós doutorado: Verônica Fabrini.
Aqui, o importante, foi a junção entre uma dramaturgia já existente, no caso o texto da espanhola Gracia Morales, ‘Como si fuera esta noche’, de 2003, com os dados e atualização de um Brasil no ano de 2019.
Quando iniciamos o processo de criação, propus-me a fazer um levantamento de todas as mulheres assassinadas na Região Metropolitana de Campinas, vítimas de feminicídios. Essa enorme lista criada e inserida no espetáculo, foi criando brechas numa dramaturgia prévia, recriando-a para um contexto brasileiro.

* Um pequeno adendo: estou escrevendo esse texto em plena quarentena por conta da COVID-19, que assolou e se expandiu mundialmente e acabo de receber de um grupo de whatsapp de mulheres, a seguinte informação:

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: ÍNDICES ALARMANTES
No contexto da pandemia de covid-19, os atendimentos da Polícia Militar a mulheres vítimas de violência aumentaram 44,9% no estado de São Paulo.
Em relatório divulgado hoje (20/04/2020), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) informa que o total de socorros prestados passou de 6.775 para 9.817, na comparação entre março de 2019 e março de 2020. A quantidade de feminicídios também subiu no estado, de 13 para 19 casos (46,2%).
A Polícia Civil informou que, por conta das medidas de isolamento social adotadas por conta do combate à pandemia de coronavírus, boletins de ocorrência relacionados com violência doméstica contra mulheres poderão ser registrados online, por meio da Delegacia Eletrônica, no link https://www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home
Você também pode ligar para o 190, telefone da Polícia Militar.
No último dia 13, o Ministério Público de São Paulo soltou nota, em que afirma que “a casa é o lugar mais perigoso para uma mulher”. Como referência, o órgão destaca dados da pesquisa Raio X do Feminicídio em São Paulo, que revelou que 66% dos feminicídios consumados ou tentados foram praticados na casa da vítima.
Através do Ligue 180 é possível, ainda, se esclarecer dúvidas sobre a aplicação da Lei nº 11.340/2006, mais conhecida como Lei Maria da Penha, que prevê pena para cinco tipos de violência: moral, psicológica, patrimonial, física e sexual.

Por se tratar de uma mensagem de aplicativo, busquei dados mais concretos e encontrei as seguintes matérias jornalísticas:

* 13/04/2020:
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/04/13/casos-de-violencia-contra-mulher-aumentam-30percent-durante-a-quarentena-em-sp-diz-mp.ghtml

* 20/04/2020:
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/04/ocorrencias-de-violencia-domestica-saltam-20-em-sp-na-quarentena.shtml

* 22/04/2020:
https://oglobo.globo.com/celina/coronavirus-durante-quarentena-violencia-domestica-aumenta-ainda-mais-nos-paises-da-america-latina-24387467

* 24/04/2020:
https://www.conjur.com.br/2020-abr-24/direito-pos-graduacao-combate-violencia-domestica-tempos-pandemia

(acessados a última vez em 10 de maio de 2020)

Agora, retornando ao espetáculo, Alice Possani e eu nos interessamos por esse texto por dois principais motivos: primeiro por ser escrito para duas atrizes (havia um desejo nosso há tempos de termos um trabalho cênico só com nós duas) e por se tratar da violência doméstica em sua multiplicidade, dentro dos ciclos de violências vividos.
Segundo o Instituto Maria da Penha, o ciclo de violência consiste em: aumento da tensão, a agressão em si, o arrependimento e o comportamento carinhoso do agressor. Ou seja, a violência sempre é seguida de um pedido de desculpas aceito, que tem um tempo de duração, porque o agressor acaba novamente realizando os atos de agressão:
http://www.institutomariadapenha.org.br/violencia-domestica/ciclo-da-violencia.html
O espetáculo trazia esse dado: toda terça, o casal vivia uma relação feliz e amorosa, mas uma sexta a cada três semanas, ele saía com os amigos, voltava bêbado paraa casa e o ciclo recomeçava. De maneira poética, Gracia nos apresentava esse ciclo, olhando o agressor em suas múltiplas faces: o pai brincalhão, o marido que pede perdão e jura amor eterno (nesse momento, as ações de encantamento, o aumento do desejo sexual, das ações de conforto) e o retorno à violência. No caso de nosso texto, são três anos de ciclo até que Fernando acaba por matar a Mercedes com tesouradas.
Fernando é um personagem presentificado pela mãe e a filha, mas não aparece em cena com um ator representando-o, assim como as outras figuras masculinas: Raul (namorado de Clara) e Paulinho (filho de Mercedes e irmão de Clara). Mercedes é a personagem mãe, Clara é a filha. Mercedes e Clara são representadas por Alice e eu, nós criamos uma estrutura de revezamento das personagens, passando de uma para outras em diversos momentos da peça, ou seja, nós duas assumimos as personagens femininas da peça.
Dentre os muitos relatos de feminicídio encontrado, o mais surpreendente para nós foi o caso acontecido em Campinas no dia 13 dezembro de 2019:
https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/12/13/mulher-e-morta-com-golpes-de-tesoura-em-campinas.ghtml
Carla Vanessa Agostini Vieira foi morta a tesouradas pelo companheiro. Esse fato nos deixou em estado de alerta e muito tocadas, especialmente pela foto da matéria, do qual se vê a tesoura suja de sangue dentro de um saquinho. Era a história de nossa peça. Carla deixou dois filhos, da mesma idade dos filhos da peça. Clara, em nossa história, tornou-se órfã aos 9 anos e Paulinho tinha 3 anos.
IMG_8082Num determinado trecho da peça sabemos que Clara viu a mãe apanhar pela primeira vez aos 6 anos, provavelmente momento pós parto, quando Paulinho ainda era um bebê pequeno. Essa história escrita na Espanha no início dos anos 2000 tornava-se atual nos dias de hoje no Brasil, especificamente em Campinas.
Decidimos inserir os dados reais no espetáculo, criando um distanciamente num determinado momento da peça para presentificarmos as mulheres vítimas de feminicídio em nossa região. A direção de Veronica Fabrini nos ajudou a criar esse trânsito e criamos 3 grandes eixos da peça: o início trabalhamos muito forte na dramaturgia de Gracia, no que podemos pensar na ficção, mas no meio do espetáculo transformamos o cenário no intuito de deixar ainda mais nublado o que se passa e, vamos aos poucos inseridos dados de realidade. Encerramos a peça no reavivar das memórias e suas transformações centradas na figura da filha.

IMG_8264A peça estreou no dia 14 de março de 2020 no SESC Jundiaí, um dia antes do início da quarentena no Brasil. Hoje ela aguarda a retomada das atividades para se fazer presente novamente.

[CENA]

Começam a cortar algumas roupas e falam estatísticas:
84% mulheres mortas por pessoas conhecidas (maridos, ex maridos, namorados, ex namorados ou amantes)
45% são por que as mulheres quiseram se separar ou se separaram
30% é por ciúmes
17% durante uma discussão
64% são mulheres negras
Em média ficam 2,3 crianças órfãs para cada mulher morta.
De 2017 a 2020 na RMC foram 62 casos.

Erika Cunha, junho de 2020