GRAN CIRCO MÁXIMO é inspirado no contato dos integrantes do grupo com famílias circenses nas periferias da cidade de Campinas. Seu projeto de montagem foi contemplado com o Prêmio Myriam Muniz 2007, da Funarte/Petrobrás, estreando em julho de 2008 no SESC Campinas.

O processo de criação de Gran Circo Máximo teve como início a imagem de uma pequena lona de circo perdida em um terreno baldio. Tal imagem foi trabalhada como lugar de sobrevivência de artistas, e não como a figura de um mundo lírico relacionado a um circo mitificado, ou a um circo de sonhos.
O espetáculo acontece em uma pequena lona de 12 metros de diâmetro que pode ser montada em espaços alternativos, tais como escolas, praças e ruas. A linguagem do espetáculo, que mistura elementos de circo e teatro, popular por excelência, estabelece diálogo direto com o público. Este é um espetáculo de teatro para adultos que acontece dentro de uma estrutura circense.

O Grupo Matula Teatro possui toda a estrutura necessária para a realização do espetáculo: lona, palco, equipamentos de som e luz, ficando a cargo do contratante a viabilização de energia elétrica e cadeiras e/ou arquibancadas para o público, e um segurança durante a permanência da estrutura em local público.

Um circo pequeno e pobre circula pelas periferias. Duas irmãs tentam manter o espetáculo nesta lona que herdaram do pai com o auxílio de apenas um ajudante.

Elas tratam de fazer tudo para que o circo sobreviva: organizam a entrada, vendem a pipoca, cantam, dançam e, através dos números que tentam realizar, são reveladas ao público as dificuldades, os sonhos, e acontecimentos de suas vidas. Estas mulheres tratam de manter o show, mas a crueldade da relação entre as duas acaba se sobrepondo ao espetáculo.

“Sejam todos bem–vindos!

É uma honra receber em nossa lona, um público tão distinto! Esta noite vocês poderão conferir um espetáculo repleto de artistas nacionais e internacionais! Diversão e emoção garantida!

Gran Circo Máximo é inspirado em várias famílias circenses que ainda existem e resistem no interior de nosso país. Motivados pelo desejo de sobreviver através da arte, esses artistas errantes nos mostram que apesar de todas as dificuldades, ainda é possível realizar nosso teatro em qualquer tempo e espaço.

E o espetáculo vai começar…

Atuação: Alice Possani, Eduardo Albergaria e Melissa Lopes

Direção: André Carreira

Preparação Vocal: Mônica Montenegro

Assessoria em Pesquisa de Campo: Mario Bolognesi

Trilha Sonora Original: Silas Oliveira

Concepção de Figurinos e Adereços: Adelvane Néia

Treinamento Circense: Família Brede

Orientação em Mágica: Darko Magalhães

Orientação em Pirofagia: Eduardo Brasil

Produção: Quesia Botelho

Classificação etária: 14 anos

Duração: 60 min.

 

 Crítica do espetáculo Gran Circo Máximo, por Alexandre Mate

“GRAN CIRCO MÁXIMO ou DE QUANDO O VENDER GATO POR LEBRE É BOM… (DEMAIS)” Em um azul e amarelo circo, distante do centro, no avesso da vida, acontece o espetáculo. A autoritária e “portunhelesa ou espanhoguesa” das irmãs, filhas de artistas circenses, anuncia, ainda quando a fila se forma, as atrações do maior espetáculo circense da terra.

Concorrendo com sua voz apresentada em megafone (tomando Mikhail Bakhtin poder-se-ia falar em heteroglossia), uma música aparvalhante e popularesca, broncas dadas na irmã e ordens ao auxiliar pano-pra-toda-obra (sem megafone), a perversa irmã dirige tudo a sua volta. De saída, ainda fora da lona, por intermédio da maquiagem, das roupas e das atitudes, da pipoca amanhecida… tudo se esclarece: trata-se de um circo decadente, cujas glórias, se um dia houve, não se tem qualquer registro.

Pintado com tintas grotescas, fellinianas, almodovareanas e assemelhadas a tantos e tantos circos decadentes, o espetáculo é delicioso! Sem a menor preocupação de mudar o mundo, de questionar temas histórico-sociais, de deixar seu nome na história… na sessão das 23h, apresentada durante a 25ª edição do Festivale (Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba) o público deliciou-se com o espetáculo: riso do começo ao fim. Em sendo linguagem circense, nessa nova empreitada – o Grupo Matula Teatro já tem 10 anos – o grupo, neste último espetáculo cumpre, de modo absolutamente inteiro, o seu a que veio. Sob a lona, a sensação de decadência se amplia e os contrastes ficam contundentemente explicitados, patentes.

Ao dirigir o espetáculo apresentado pelo Grupo Matula, de Campinas (SP), André Carreira, que sabe muito bem o que está fazendo, dispensa a segunda parte da totalidade dos circos populares, que era o melodrama ou a farsa. Entretanto, a relação entre as irmãs, o nervosismo pela mentira que se amplia, os problemas técnicos… apresentam um drama humano forte, contundente, humano, grotesco plasmado pela sensação do existir em estado de fronteira. Desse modo, o teatro da segunda parte encontra-se tingido no indisfarçável fingimento que caracteriza a miserável sobrevivência. De outro modo, os números – quase todos – são mentirosos porque não correspondem ao anunciado, mas é verdadeira a relação entre as personagens. Melissa Lopes, a cruel e autoritária irmã – madura, depois de dez anos de grupo – está muito bem: o grotesco, a sedutora e a cabotina misturam-se de modo inteiro; Alice Possani, em quase todo o espetáculo, assemelha-se às antológicas personagens dos filmes de Fellini: compõe sua personagem a partir de um estado interdito, caracteriza-se na mais absoluta imagem do patetismo.

O ator que as acompanha (infelizmente não foi possível ter acesso à ficha técnica) é um misto entre Cantinflas redivivo e Valdick Soriano magérrimo… Ele está muito bem (apenas não entendo, mas isso não muda nada, porque fuma tanto… O cigarro apagado poderia resultar mais cômico…). Trata-se, portanto, de um triângulo absolutamente imperfeito, cujo resultado é muito bom: um triângulo que vende gato por lebre: para sobreviver, para continuar, para existir… Foi o quarto espetáculo assistido no dia… O que, dentre outros aspectos cansa, mas, mesmo assim, daria vontade de assistir novamente. Além dos mais efusivos cumprimentos ao diretor e aos atores, resta desejar uma longa carreira (também com o André, por que não?!) e muita deambulação ao grupo. *Alexandre Mate – Doutor em História Social (FFLCH-USP). Professor de História do Teatro e da Literatura Dramática no Instituto de Artes da Unesp e da Escola Livre de Teatro de Santo André.

Pesquisador de teatro e participante do Núcleo Nacional de Pesquisadores de Teatro de Rua.

Autor dos livros BURACO D’ORÁCULO: UMA TRUPE PAULISTANA DE JOGATORES… e TRINTA ANOS DA COOPERATIVA PAULISTA DE TEATRO – UMA HISTÓRIA DE TANTOS…

Fonte: Fundação Cultural Cassiano Ricardo

 

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