Muitas vezes me pergunto a diferença entre olhar e ver. Eu olho tantas coisas todos os dias, mas o que vejo (com o coração, com a transpiração, com os sonhos) é pouco, desabituei-me na velocidade maluca do dia-a-dia. Decidi descrever, ver e viver cada momento dessa viagem, com o impacto de cada paisagem, de cada encontro.

Mas, como foram muitas as novidades, vou dividir essa postagem em 3 temas:

  • V Colóquio Internacional sobre las Artes Escénicas – Em torno a la comunidade, que aconteceu na Casa del lago de laUniversidadVeracruzana e parceiros.
  • Apresentação dos Solos Brasileiros na Universidad Claustro Sur Joana
  • Passeios, pessoas e paisagens, porque afinal o México merece destaque!

México Parte I: V Colóquio Internacional sobre las Artes Escénicas – Em torno a la comunidade, que aconteceu na Casa del lago de laUniversidadVeracruzana, de 22 a 24 de Setembro de 2014

O Colóquio aconteceu na cidade de Xalapas, capital do estado de Vera Cruz e estava repleto de mesas sobre o movimentos artísticos e ações comunitárias, em especial mexicanos, vimos desde um teatro feito por não-atores, quanto por apresentações e performances, que podem interferir no cotidiano de uma comunidade.

Um ponto muito importante desse colóquio foram as denúncias sociais: dos povos mexicanos aos saharauis!

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As mesas que aconteceram no primeiro dia destacavam as ações em comunidade indígenas, chamou-me a atenção o trabalho de Carlos UraniMontiel que falou sobre os povos maias e o saber local, mostrando uma possibilidade de suspender os limites, de romper com as fronteiras e ampliar o olhar para o outro, a partir dele mesmo, lembrou um pouco Deleuze e as linhas de fuga, as rasuras que fazemos no cotidiano para nos permeabilizar mais com o outro, em busca de um uno. Ficou o pensamento de que o teatro por si só é um ato marginal, porque diariamente perde seu espaço num mundo tão midiático.

Lourdes Pérez Cesari (Universidade Autônoma do México) falou sobre os jovens desaparecidos no Distrito Federal, cerca de 1.693 sequestro na cidade do México, em 2013, claro mostrar os números é uma forma de normalizar a crueldade, então ao invés disso, de numerar os desaparecidos, essa artista criou uma performance que mostra fotos desses desaparecidos e escreve seu mestrado através de cartas, que são lidas durante a performance Qué estamos haciendolosjóvenes para desaparecer? Ao falar dos ausentes, elas os tornam presentes.

No segundo dia, Paula Ibañez nos coloca um pouco sobre o poder da ancestralidade e do sagrado nas artes cênicas, a intereiça de seu trabalho ela foi me dar a oportunidade de provar, três dias depois, quando víYaguaretéa.

coloquio com grancirco

André Carreira fez uma Conferência Magistral, que foi realmente ‘magistral’, especialmente quando nos questionou: Qual o papel do teatro? Do teatro com relação a comunidade? Mostrou fotos de espetáculos que ele realiza na rua (Paráguas, Quixote, Macunaíma, Engasga Gato). André nos falou sobre suas pesquisas com relação a dramaturgia das obras que ele dirige, que vão acontecendo depois de experimentos, mas que partem da ficção para a possibilidade de criar realidades, de criar vínculos momentâneos e deixar resíduos que vão se desdobrar em narrativas cotidianas, ou seja, faz da experiência artística um encontro radical, com vestígios que se seguirão. O teatro de rua interfere no cotidiano da cidade, assim ele chama de teatro de invasão, já que a rua é um espaço de luta.

coloquio com exilius

A minha apresentação aconteceu no terceiro dia, na mesma mesa estava Daniel Costa, parceiro de pós-graduação aqui da Unicamp, nosso tema foi “Comunidade escénicas no Brasil”, apresentei o processo de meu doutorado até o momento, ou seja, as pesquisas de campo, que estou organizando em forma de documentário audiovisual que será entregue no final junto com a tese.  Com Daniel partilho o pensamento de Boaventura Sousa Santos sobre as Epistemologias do Sul, sobre um teatro criado no sul e falando sobre o sul. Mas, o Matula estava lá comigo, em imagem e em coração, estava em Gran circo e estava em Exilius.

Essa apresentação permitiu-me ver o quanto estou permeada pelos outros, pelos artistas da pesquisa e pelas comunidades que nós artistas damos voz, de certa forma, eu apresento um ponto de vista, que é a possibilidade do outro ser visto, de uma dramaturgia fronteiriça que permite o outro ter voz, mas que também permite o ator se posicionar politicamente e esteticamente sobre o tema. Mas, ficou a provocação: como eu pesquisadora, a partir desse momento, nessa segunda etapa de escrita, como me posicionou sobre as obras pesquisadas?

Essas serão as cenas dos próximos capítulos dessa tese, mas agora se quiserem podem ficar com o vídeo apresentado por mim, com legendinha e tudo, o vídeo está sendo produzido em parceria com o meu irmão Ericson Cunha. Ah, não coloquei legenda nas obras, porque eu acho que a poesia de teatro deve-se sentir com a cabeça e com o coração, independente da língua:

Para finalizar o colóquio, destaco três trabalhos: um realizado em Chiapas, por DorisDifarnecio e BrittanyCávez sobre como “Formar uma comunidade contra o Feminicídio que acontece em Chiapas, por meio de ações artísticas”. O trabalho da querida Isabel Bezelga, da Universidade de Évora, sobre as praticas teatrais e a comunidade e sua contribuição para a formação de agentes artísticos de intervenção, em parceria com Hugo Cruz da Universidade do Porto. E, o trabalho de SangeetaIsvaran, indiana, que possui um trabalho com crianças em situação de rua, já participou com esse trabalho em diversos países e se chama “Dançantes do Vento”.Ela é dançarina, coreógrafa, pesquisadora e ativista social. Mestre em Artes da Performance e especialista em Dança Clássica Cambodjana, é colaboradora de diversos artistas contemporâneos do Sul e Sudeste da Ásia e Oeste da África, como DidikNinikThowok, SovannaPhum Dance Theatre e Irene Tassembedo. Nos últimos anos, vem participando de inúmeros encontros, seminários e conferências internacionais na área de arte, educação e direitos humanos. Sangeeta já trabalhou com a UNESCO, World Vision, Oxfam, Handicap International, entre outras.

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Aqui, vemos a arte como ferramenta para a mudança social e isso é realmente potente.

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