Lisboa, 17 de abril de 2013.

Matulas e amigos queridos,

Tudo bem com vocês?

Ora pois…

Quantas saudades de todos! Ando meio sumida, né? Mas, só fisicamente, porque de pensamento e coração estamos sempre juntos!

Desde setembro do ano passado estou morando em Portugal. A ideia era passar apenas 6 meses, por conta de minha investigação de doutorado, que tem como um dos focos, minhas experiências no Matula. Mas, o trabalho correu tão bem por estas bandas, que 6 viraram 11 meses e por isso, só volto pra casa, em agosto deste ano.

O tempo voa e muita coisa já foi feita! Se por um lado a pesquisa de doutorado acontece diariamente nas bibliotecas (o que é uma delícia!), por outro, venho paralelamente aproveitando o tempo, por essas bandas para me alimentar. Mas, não só de vinho e pastelzinho de Belém e sim de arte. Muita arte!

Desde que cheguei estou envolvida em várias atividades artísticas e de formação. Tenho conhecido gente muito bacana, desenvolvido novos vínculos e parcerias muito importantes para o Matula. Aproveito essa carta não só para matar um pouco da saudade, mas para contar-lhes um pouco do que tenho feito por aqui.

Assim que cheguei fui convidada pelo ator e professor da Universidade de Évora, Tiago Porteiro, para ministrar dois workshops, na graduação em bacharelado em Artes Cênicas. Foram 30 alunos de diferentes turmas do curso, em períodos intensos de trabalho acerca do universo da máscara.

O 1º módulo envolveu o estudo da Máscara Neutra e o 2º, a experimentação dos tipos da Commedia Dell’Arte. Um verdadeiro mergulho e encontro potente com a realidade artística de Portugal!

Ainda no ano passado, fui convidada pelo ator, diretor, dramaturgo e co-orientador de minha pesquisa de doutorado, o professor Paulo Filipe Monteiro, para fazer parte da comissão organizadora do I Colóquio Internacional Drama e Filosofia, que foi realizado em janeiro, deste ano na Universidade Nova de Lisboa. O evento contou com diversos pesquisadores da área teatral e da filosofia, com direito a uma mesa luso brasileira muito especial. Pude trazer diversos pesquisadores brasileiros para enriquecer o debate do Colóquio e com isso também matar um pouco da saudade do Brasil!

Este tempo em Portugal, como disse anteriormente tem sido um período de alimento artístico e por isso tenho aproveitado esse tempo para entrar em contato com outros artistas. Duas das experiências mais interessantes que tive foram: participar como atriz de workshops intensivos de Voz e Movimento, com o português, radicado na França, Jorge Parente.

Jorge foi discípulo de Zygmunt Molik, um dos principais atores do Teatro Laboratório, de Jerzy Grotowski. Através desses workshops fui convidada para integrar um projeto que envolveu artistas de outras culturas, Portugal, Paquistão, Tailândia, Polônia e Espanha, a fim de realizar um exercício cênico a partir de Macbeth, de Shakespeare.

Outro trabalho, muito importante para mim nesse período foi o Seminário Arte e Comunidade, que aconteceu na cidade de Guimarães (capital europeia da cultura), com o coreógrafo brasileiro Marcelo Evelin. Marcelo mora na Europa há muitos anos, mas é diretor artístico do Núcleo do Dirceu (Teresina/PI), que realiza o projeto artístico-comunitário 1000 casas. Entrar em contato com esse trabalho me ajudou a redimensionar os trabalhos que o Matula já realiza com a comunidade desde sua fundação (moradores, de rua, mulheres assentadas, famílias de circo, povo saharaui) e projetar novas ações a partir desta relação artista-público.

Nesse tempo também tenho me deparado e me inspirado em vários artistas do cenário português, entre eles, se destacam: Madalena Venturino, Rui Horta, Maria João Luis, Teatro Meridional e etc. Além de muitas outras referências na Europa que circulam com mais facilidade por aqui.

 

Este período também tem me proporcionado muitos reencontros especiais, entre eles gostaria de destacar Simone Frangella, antropóloga que foi muito importante no trabalho do Matula com a população de rua. Paula Guerreiro que foi assessora de imprensa de alguns projetos do grupo, Quesia Botelho, parceira da casa, as atrizes brasileiras, Paula Vanina, Talita Silva, Mariana Emiliano e os atores portugueses, Susana Cecílio e Nicolau Antunes.

 Com três meses e meio pela frente, ainda há muito trabalho por fazer: entrevistas, estudos bibliográficos, visitas a museus, espetáculos, concertos e um curso de máscara, que será realizado na Itália, ministrado pelo grupo alemão Familie Flöz. Dá pra imaginar minha alegria?

Em breve estarei aí, revigorada, alimentada e pronta para dar muitos cursos e viver novamente as personagens: Agda, Celônio, koo koo, a mulher ave, Helga Halfeld, a malabarista alemã, Diodene Herreira e Suzette, a encantadora de cobras de Circo K e o que mais vier pela frente. Aguardem!

Com carinho me despeço!

Beijos da Melissa