Ala Internacional do Aeroporto de Guarulhos, 22 de Setembro de 2015

No meio do corredor, duas agentes da polícia federal tentam se entender com um grupo de 12 homens, cujas feições nos fazem pensar no Oriente Médio: a pele é escura, mas um escuro diferente dos negros brasileiros, um tom mais dourado. Os traços são finos: nariz reto e estreito, lábios finos e pequenos. As agentes tentam se comunicar em inglês, em espanhol, sem avançar. Estão tentando descobrir qual é o destino final dos passageiros. O diálogo não avança, não há língua em comum. Uma delas sai, a outra permanece com os homens, em um silêncio cheio de tensão. Muitos olhares entre eles, palavras ininteligíveis trocadas rapidamente.
Dois outros agentes aparecem, agora dois homens, altos e largos, com pinta de segurança. A tensão dos homens que esperam aumenta alguns graus. Em vão, os novos agentes repetem as mesmas perguntas em inglês.
O tempo passa.
Olhares tensos.
Mais tempo.
Aparece uma terceira agente, trazendo os passaportes de alguns deles na mão. Tenta novamente descobrir o destino final da viagem, mas, diferente dos outros, começa a frase com “ok, it’s ok, ok, relax, ok, ok”. Pergunta: Eu preciso saber qual é o destino final de vocês. Brasil? Diante dos muitos oks e da tranquilidade da agente, um deles responde: I want Brasil, e todos repetem. Ela segue dizendo ‘oks’, confere quantos são, conta os passaportes e pede os que faltam. Relutância. Alguns não querem entregar. Ela tenta explicar com gestos que precisa dos passaportes para anotar os nomes, e que depois vai devolver. Obviamente eles não entendem, mas diante dos inúmeros ‘oks’ que ela intercala na frase, entregam os passaportes.
O clima de tensão começa a se dissolver, é possível vislumbrar sorrisos e algum alívio.
Seguem todos juntos com a agente para que ela possa anotar os nomes de todos.
Vendo-os se afastar, sou tomada por lágrimas inesperadas, num choro quase soluçante. Feliz porque, apesar do muito por fazer, o Brasil é um país que acolhe. Em nenhum momento os homens foram maltratados, desrespeitados, ninguém encostou neles. A dificuldade era entender o que queriam. Feliz por saber que ainda é possível vislumbrar -mesmo que por pequenas frestas – um mundo mais fraterno e justo.
Fico pensando na aventura desses 12 homens, que deve ter começado muito tempo atrás. Penso nas inúmeras imagens de barcos superlotados de imigrantes que tem povoado a internet nos últimos meses, penso nos portões levantados pela Hungria e na violência que se estabelece em todas as fronteiras por aí afora, portões e portais para outros mundos.
Fico pensando no que vão fazer quando saírem lá fora, nessa imensidão que é Guarulhos e Grande São Paulo, sem falar português nem inglês, nem espanhol, nem nada reconhecível pela maioria dos brasileiros. Fico pensando onde vão dormir essa noite, se vão sair caminhando, ou como vão entender para onde vão os ônibus que saem do aeroporto. Ainda tem pela frente uma longa jornada em que as dificuldades não serão poucas, em que ações corriqueiras como tomar um ônibus podem apresentar dificuldades hercúleas.
Ainda assim, os sorrisos de alívio que causaram minhas lágrimas revelam que uma parte importante foi vencida: chegaram à uma terra que permite que eles fiquem, se instalem, e lutem pela sobrevivência com as forças e capacidades que tiverem. It’s ok, relax.
Os sorrisos que causaram minhas lágrimas eram sorrisos de quem, depois de uma longa jornada que só posso imaginar, vislumbra alguma esperança.
E liberdade.

Alice Possani