Para o processo de criação de IMAGO – Uma  lua n’água, estamos mergulhados na obra de Júlio Cortázar desde 2013, devorando suas obras, como por exemplo as coletâneas de contos “Bestiário” e “Todos os fogos, o fogo”. Por meio de nossas leituras e pesquisas cênicas, construímos o que estamos chamando de imaginário fantástico deste autor. Para compartilhar esta ideia de imaginário, convidamos uma colaboradora especial, que dividiu conosco um bate papo delicioso sobre a obra do autor. Com a palavra, Aline Aimée:

Julio Cortázar é desses autores que nos instigam pela estranheza. Você pode até amá-lo rapidamente, mas, decerto, isso não se deverá a qualquer sentimento familiar. Se nos inclinamos mais e mais em direção ao seu texto, é por curiosidade. Uma curiosidade travessa, com frescor de infância, de quem não se conforma com o embotamento cotidiano e quer reativar a capacidade de descobrir, de se surpreender.

O inusitado, o fantástico, relatos intimistas, ambiguidades, criaturas mágicas, finais inexplicáveis que em vez de encerrarem as histórias abrem-lhes para novas interpretações… Eis os elementos que compõem o universo imaginário do autor belga-argentino. Com narrativas simples que, muitas vezes, simulam relatos confessionais, Cortázar nos engana, nos atrai o máximo que pode para um ambiente aparentemente inofensivo, onde havemos de nos perder — ainda que para nos reencontrarmos em seguida.

E esse reencontro, empreendemos com as próprias pernas, já que o escritor não vai nos legar nenhuma resposta: seus caminhos são desafios, mas cada vitória é única, peculiar.

Nos elementos absurdos e fantasiosos que Cortázar nos apresenta — tradições familiares malucas, coelhinhos regurgitados, seres fantásticos, reações incoerentes — revela-se a ênfase no ato inventivo e no processo criativo. O escritor parece nos sugerir a porta por onde escapar do conformismo, aquela que nos possibilitará criar ressignificações necessárias. Não confiem nesse narrador! Pois todo o suspense e toda a tensão desse relato aparentemente confessional, que nos toma por confidentes, se constrói para que fiquemos afiados, para que nossa percepção se aguce, para que nos libertemos da comodidade inerte e nos lancemos, também nesse processo criativo.

Cada texto de Cortázar funciona como um convite à renovação do olhar, a uma postura ativa, atuante diante dos acontecimentos: texto-barco, no qual o narrador nos introduz em águas de significados moventes e plurais, para depois nos passar os remos, a fim de que possamos definir nossos próprios e singulares caminhos.

Aline Aimée é carioca, mestre em Literatura pela Uerj e funcionária pública federal. Escreve nos blogs palavrainvadida.com e little-doll-house.com e tem textos publicados em revistas e sites literários. Publicou, ainda, contos nas coletâneas Entrelinhas e Sopa de Letras, da editora Andross.