Mês passado, a atriz Erika Cunha participou da experiência “Coelho Branco, Coelho Vermelho”, dentro da programação do X Feverestival e escreveu um texto super especial para relatar sua experiência conosco:

A sinopse era essa:

Imagine você ter 29 anos e ser proibido de deixar o seu país. O autor Iraniano Nassim Soleimanpour disseca a experiência de toda uma geração em uma peça abrangente e original. Proibido de viajar, ele torna o seu isolamento seu aliado na produção de um espetáculo teatral que dispensa direção e cenário e que requer um ator ou uma atriz diferente a cada apresentação e que não conheçam o texto e não saibam o que se passará em cena. *

Era tudo o que eu sabia, eu não podia procurar nada na internet sobre ele, nem sobre o texto dele, muito menos saber algo de quem já havia feito a peça.

Dois dias antes, eu recebi “instruções para ler” o texto. Eram 12 itens, entre eles, não interromper a leitura e, que o texto somente seria entregue no palco, quando a produtora me apresentasse para a plateia.

E assim foi, dia 24 de fevereiro quando cheguei na Boa Companhia às 17h30.

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Nesse dia, era tudo diferente, não havia uma preparação específica, porque não sabia para quê ou para quem me preparar, não havia aquecimento ou relembrar o texto. Não havia fotos para serem revistas antes de entrar em cena, ou marcações novas de diretor, não tinha que saber onde estava o foco tal. Não tinha que vestir um figurino.

Vestia-me apenas como eu mesma. “Vista-se de forma confortável”. Confortável eu? Quando? Como? O que é conforto? (Isso vira assunto de terapia: quando estamos confortáveis em nós mesmos?)

Mas, diferente do que pensei, eu estava a me preparar. Passei o dia todo com a ‘imaginação’ a flor da pele, sonhei com os dias de isolamento (os meus e não os dele), fiquei inquieta com a questão tão pertinente e constante de meu doutorado: Exílio e Fronteira**. Passei o dia com a sensação de montanha russa, frio na espinha e no estômago.

Olhei o palco, era a primeira vez que retornava a ele desde a cirurgia e a radioiodo. Uma lágrima tímida saiu de mim.

Às 18h30, o público entrou, cerca de 10 minutos depois eu fui convidada para adentrar ao palco, estava com um texto e um frasco na mão.

No palco somente 1 mesa, 1 cadeira, 2 copos, 1 colher e 1 escada.

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Retirei o texto do envelope pardo, olhei pra plateia, mãos suadas e trêmulas, de repente, eu estava em exposição, somente eu, um texto e uma plateia louca pra saber como seria, como eu criaria, como eu me envolveria com o texto.

Respiração profunda. Dei início ao texto. Daqui pra frente não é permitido parar. Devo seguir até o fim.  Daqui pra frente, palavras escorriam dos meus lábios e folhas de papel voavam pelo espaço.

Tinha a impressão que o Nassim estava ali comigo e que a qualquer momento ele me olharia e daria um grande sorriso.

Fábulas de coelhos, de tigre, de avestruz, de um circo todo a girar, minha cabeça girava, não compreendia aquilo, animais que vão ao circo, plateia, era preciso contar o público: 43, com a produtora 44 e com o Nassim (que estava ali – metaforicamente é claro!) 45. Mas o público insistiu em 43.

Realidade ou ficção? Quem realmente estava ali? Quem somos nós? Reais ou virtuais?

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Ele conversava comigo, dava-me instruções de uso, de ações, de reverberações, era preciso calma e alma para sentir a palavra, para dar vida à imagem.

Eu não me gabo de ser brasileira, na verdade não sei se isso realmente tem importância, a nacionalidade. Nunca pensei realmente se ter nascido aqui me fazia diferente de quem nasceu lá.

Ele me conta o mesmo, ser iraniano não o ofende nem o apraz, somente o faz.

Lendo descubro que ele é mais jovem do que eu.

Enquanto lia, podia imaginá-lo IRANIANO, mas também um pouco saharaui (povo que me aproximei por conta do meu espetáculo solo Exílius), mas também um pouco Erika, um pouco marginal.

Impedido de sair de seu país, impedida de sair de seu próprio corpo, impedido de viajar, impedida de sair de casa, impedidos de sair dos acampamentos de refugiados…

Mas, vamos discutir o que importa: isso é real? Qual ponto dessa história é ficção? Realmente está acontecendo agora? Quanto disso eu já tinha imaginado? Quanto disso ele está mentindo?

Ele me conta de sua cidade natal Teerã, da cidade que ele está agora Shiraz, ou melhor, da cidade que estava no dia que escreveu a peça, do pé de laranja que há em sua frente. Procuro agora no google Shiraz e Teerã. Vontade de conhecer esse lugar não lugar, que ele descreve.

Lembro-me da Melissa***, do seu doutorado falando sobre ‘territórios íntimos’, acabo de adentrar a uma realidade construída por palavras por esse louco/terrorista iraniano, que não me deixa a mente solta.

Nessa conversa íntima entre ele, eu e a plateia, construímos juntos uma realidade paralela, no qual o medo começa a fazer parte, a qualquer momento os ursos podiam nos cercar, a qualquer momento podemos estar entregues a um experimento estranho, fazendo parte de mais uma conspiração internacional.

Conversamos sobre assassinatos e sobre suicídio. Descrevemos formas mais comuns de se suicidar, e aquele texto não era mais dele, era MEU, sim totalmente MEU. Não era possível mais ninguém ter escrito aquilo. As palavras cabiam na minha boca, abriam janelas no coração.

Saio da apresentação exausta, tinha corrido a meia maratona. Nessa noite eu sonhei com ele.

Na manhã seguinte, conversei com ele pelo facebook, ele no Irã e eu aqui em Campinas, falando sobre os mesmos medos, que fazem parte de nossos 30 e poucos anos.

Pensei sobre a guerra, Teerã, Shiraz, Campinas, Saharauis, Polícia Militar, Coelhos, Ursos, Radioiodo, sobre ser nação, sobre Exilius, sobre conhecer o Irã e a Palestina. Pensei na função do teatro, pensei sobre o que é ser atriz?

Se é verdade, eu não sei… mas deixo aqui um pouco dessa experiência incrível que foi participar de COELHO BRANCO,COELHO VERMELHO.

Abraços,
Erika Cunha



Coelho Branco, Coelho Vermelho fez parte da programação do X FEVERESTIVAL – Festival Internacional de Teatro de Campinas, sua realização foi uma parceria entre o festival e a Patrícia Ceschi da produtora Aymberê. No dia 24 de fevereiro a leitura foi feita por Erika Cunha (Grupo Matula Teatro) e dia 25 de fevereiro por Moacir Ferraz (Boa Companhia),

Ficha técnica Texto: Nassim Soleimanpour, Tradução: Mauricio Ayer, Produção Brasil: Aymberê Produções Artísticas Ltda, Espetáculo produzido em parceria com Aurora Nova e Wolfgang Hoffmann. Dramaturgia: Daniel Brooks e Ross Manson.

** Sou doutoranda em Artes da Cena UNICAMP, sob orientação da Profa. Dra. Veronica Fabrini Machado de Almeida, com o projeto: Front(eiras) dramaturgias entre o real e o imaginário.

*** Melissa Lopes é atriz fundadora do Grupo Matula Teatro e doutora em Artes da Cena pela UNICAMP, com a tese: Território Cênico de Encontros Íntimos.