WhatsApp Image 2018-06-26 at 11.19.58 Encontros com Hilda…

Desde março tenho o privilégio, e desafio, de substituir a atriz (e amiga) Melissa Lopes na Intervenção Poética PASSAGENS, do Grupo Matula Teatro. Com direção de Moacir Ferraz, a Intervenção é uma caminhada pelo universo poético da obra de Hilda Hilst, que oferece um encontro marcado pelo lirismo. Poemas, fragmentos de contos e novelas, compartilhados com o espectador que ora segue os atrizes, assiste às cenas, e ora se descobre parte delas. As atrizes são acompanhadas pelo músico e parceiro Érico Damineli, e entre imagens, textos de prosa e poesia, canção e cenas de teatro os passantes são convidados a conhecer um pouco da contundente obra de Hilda. Proposta de interrupção do cotidiano, da “sangrenta lógica dos dias”, fazendo o convite: “se a gente olha tudo de um jeito vagaroso, tudo é sagrado”.

A Intervenção foi criada especialmente para uma visita guiada à casa de Hilda em 2011, e impulsionada por esta incrível experiência, atravessou o portão da Casa do Sol, e tem percorrido diversos espaços como praças públicas, calçadões, a rua. Também como parte da programação “O Feminino, o Verso e a Cena”, estreou na Casa do Sol o espetáculo AGDA, baseado no conto homônimo de Hilda, também com direção de Moacir Ferraz, mais uma feliz parceria do Matula com a Boa Companhia.

Acompanho PASSAGENS como produtora desde 2012, e sempre fui espectadora e admiradora do belo e sensível trabalho que Moacir e as atrizes realizam com as palavras de Hilda. A cada vez que acompanhava a intervenção era tocada por um trecho diferente da obra e os meus poemas preferidos iam se revezando. Relato agora uma peripécia que fiz na primeira vez que acompanhei a Intervenção: como produtora, eu tinha a função de levar a sacola com figurinos que seriam usados na cena final. Estávamos em Cubatão, uma das cidades do Circuito Cultural Paulista (APAA), e eu fui sendo tocada pelas poesias e imagem realizadas pelas atrizes e pela trilha ao vivo. Até que Alice me olha e me indica o local em que eu deveria deixar a sacola. Mas cadê a sacola? Eu tinha deixado no camarim!!! Saí correndo pela praça, tentando ser ágil e discreta ao mesmo tempo, recuperei a sacola no camarim, e a intervenção continuou sem que o público percebesse o furo (e encantamento) da produtora. Cuidado com Hilda! Ela causa esses desnorteamentos!

No final de 2017, Alice e Erika me convidaram para integrar a Intervenção, agora como atriz. Nos ensaios, as canções de Dulce Pontes povoavam o imaginário, e as imagens de mulheres de Picasso, Marilyn Monroe, Vênus, a Justiça, Gisele Bundchen, Paula Rego, estavam nas paredes da sala de trabalho do Matula para inspirar e provocar, marcando nossa retina. As espirais, tensões entre céu e terra, entre a mulher e Deus, aparecem nos corpos das atrizes através de torções, imagens, giros e formas. Buscamos também dar corpo às figuras presentes em trechos da “Obscena Senhora D”: as vizinhas futriqueiras, os homens sem papas na língua e a própria Hillé. Decorar textos de Hilda é um trabalho minucioso, que Moacir estimula no cuidado e preciosismo com as palavras escritas pela autora.

justicapaula-rego-dog-womanles-demoiselles-davignon picassoMarilyn

Foram até agora três apresentações minhas: Sesc Bom Retiro, Sesc Osasco e na Visita à Casa do Sol, casa da escritora. A Casa do Sol, em Campinas-SP, construída por Hilda em 1965, foi um porto seguro de sua criação. É na Casa do Sol que Hilda dedica-se exclusivamente ao trabalho literário, realizando ali mais de 80% de sua obra. Na Casa do Sol encontra-se o Instituto Hilda Hilst (www.hildahilst.com.br), que guarda e preserva a memória, as obras e o acervo da escritora, além de lindas árvores e plantas, da figueira mágica e muitos cães.foto passagens

Dizer as palavras de Hilda na Casa do Sol foi muito emocionante! E ter, entre outros ouvintes, Daniel Fuentes e Olga Bilenky, amigos íntimos de Hilda, foi de tirar o fôlego! Foi um privilégio acompanhar a Visita Guiada deste dia 23 de junho, e dar voz às palavras da escritora.

Ainda em 2018, Hilda será a autora homenageada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty-RJ). Fica o convite para conhecer a obra de Hilda!

Quesia Botelho