BLOG 2017

‘Como ele sempre dissera: o rio e o coração, o que os une?

O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo’

(Mia Couto, 2004).

Se a vida é um constante nascer-morrer, a trajetória de um grupo de teatro – que une criação artística, existir em resistência e múltiplas relações de afeto – não poderia ser diferente: vivemos em eterno fazer-se.

No entanto, existem aqueles períodos em que esse constante movimento a que estamos acostumados adquire um ritmo vertiginoso e em alguns meses parecem caber anos!

Em 2016 foram vinte e seis apresentações de cinco espetáculos diferentes em dezessete cidades, incluindo um processo de criação e estreia de projeto há muito tempo desejado. Passamos por reformas internas e externas: a sede em obras e integrantes do grupo tomando novos rumos, exigindo re-configurações dos modos de produção e criação. Além do novo espetáculo, parimos uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado e uma criança (sim, parimos no plural, porque em se tratando de existências coletivas as ações individuais e coletivas estão sempre irremediavelmente imbricadas).

Após um necessário respiro, no início de 2017 retomamos as atividades com uma deliciosa limpeza da sede! Sabe aquelas faxinas em que a gente abre caixa por caixa, pasta por pasta, e olha para cada adereço, cada ferramenta, cada pedaço de algo que vai servir algum dia para alguma coisa, cada papel amarelado, cada uma das tantas – e inacreditáveis – coisas que um grupo de teatro vai juntando ao longo do tempo? Pois enchemos uma caçamba com esses desapegos!

Prontas para abrir os trabalhos com mais leveza (literalmente), fomos surpreendidas pelas chuvas de verão que entraram pelas paredes e telhado, pingando, molhando e escorrendo águas por todos os cantos da nossa casa-sede…

Logo após uma reforma que acreditávamos finda nos deparamos com a necessidade urgente de trocar todo o telhado do Espaço Cultural Rosa dos Ventos.

Um profundo suspiro para pegar o ar necessário e cá estamos de telhado novo, recebendo as águas de março sem inundações indesejadas!

E o que já sabemos sobre 2017 ???

Que estamos ensaiando novos espetáculos velhos,

Que já começou mais uma edição d’O Jogo e a Cena, dessa vez ministrado por Quesia Botelho,

Que nos próximos meses teremos Jogos Cortazianos, Exilius e Agda,

Que receberemos o espetáculo de uma artista por quem temos profunda admiração e afeto,

Que se ouvirão Gritos da Medusa,

Que entendemos com as águas que a insistência encontra caminho em meio às pedras e que esse ano será necessário entrar pelas frestas, escorrer por cada pequeno espaço de respiro possível, liquefazendo-nos sempre que necessário,

e que essa é a nossa força,

de gota em gota, criando caminhos,

nascendo-morrendo,

sempre.

Campinas, 15 de março de 2017

Alice Possani