Chegamos às 9h40 no Espaço Garapa e fomos recebidos pelo queridíssimo Chiquinho.

Preparamo-nos entre o cheiro e o sabor de polvilho, café e pipoca nhac, que já deram uma cor no que seria o dia de hoje.

DSC03528

A primeira intervenção aconteceu às 11h na Praça José Bonifácio, no centro da cidade, entre a Catedral e o Poupatempo. Foi a primeira vez que apresentamos nesse horário, com o sol a pino e a população toda no maior corre do quinto dia útil, a cidade estava agitada, entradas e saídas de bancos.

Na praça havia aqueles carrinhos imitando fusquinhas e fiat 147 empurrados por senhores com mais de 50 anos, como diria a Quesia, uma carroça empurrada por humanos; uma pequena feira de artesanatos com barraquinhas azuis, aonde se viam colares, colchas, almofadas e crochês entre cachorros quentes, pipocas e rostos que franziam o cenho enquanto tentavam proteger-se do sol, que insistia em ficar firme e forte sobre a gente; lojas de celulares; ciganas prevendo o futuro, assinalando a linha da vida; senhores sentados nos bancos.

DSC03376

Iniciamos. Bexigas, sons, a voz do Flávio, indicações, um rosto, orelhas viajantes, trocas de olhares, um senhor de barriga avantajada cabelo e barbas brancas me abraça (um abraço de amigo urso). Ver a bexiga desaparecer… doar uma bexiga para alguém… eis que passa uma mulher sentada numa cadeira de rodas, vem à minha mente a bisa, a Vó Nega. Contemplar o tempo do balão verde desaparecer… Orelhas, mentes, imagens dançantes de pensamentos, outros olhares, cabelo loiro, uma mulher negra altíssima e seu pequeno prazer “pipoca com torresmo comprado no pipoqueiro da esquina”… um senhor com uma panela elétrica de arroz “isso aqui é regressão?”… risos… muitos risos entre moradores de rua.

DSC03439

Analfabetismo. Impressionante a quantidade de analfabetos que encontramos, fazia tempo que não encontrava com uma quantidade grande de pessoas que não sabem ler. Saem lágrimas de meus olhos e hoje estou permeada por pessoas de minha infância, minha avó foi alfabetizada quando eu tinha 10 anos, desenhar o próprio nome de repente era a coisa mais linda que ela fazia.

A segunda intervenção aconteceu às 16h no Terminal Central de Piracicaba entre o corre-corre no final do dia, fim de expediente e ida para casa, para a aula, para vida.

Prostitutas, cafetões, cabelo azul, adolescentes, balões metalizados Peppa Pig, Princesas, Bob Esponja…

DSC03387

“Galega, adoro uma galega”. Dor no coração, invasão de meu universo particular, nó na garganta. “Você escreve pra mim? MEUS POBREMA”. “Claro. Agora vem comigo até o centro da praça”. “Pode soltar? Posso soltar meus pobremas, você escreveu, né?”.  “Sim, pode soltar, olha, eles vão embora”. Ri,  faltando um dente. Vira as costas e volta para a roda de homens, naquela noite ela trabalha. Talvez com menos ‘pobremas’ ou com novos ‘pobremas’.

“Posso escrever qualquer coisa?”. “Sim, fique a vontade”. KAIQUE. “Nossa, olha como tá indo alto”. “É, o Kaique vai alto”.

Jogos Cortazianos tem sido assim, cheio de paisagens sonoras, cheiros, olhares e um universo intenso de sentir, de compartilhar com o outro, de por cinco minutos trocarmos nossos anseios de um pequeno prazer, de algo que deveria desaparecer, da última vez que nos sentimos vivos ou nos desprendendo de tudo aquilo que nos constitui, que dizem que nos constitui.

DSC03652

Desde Exilius, eu não me envolvia tão profundamente numa ação artística como no ‘Jogos’, a possibilidade de me aproximar, de olhar para o outro, de sair um pouco mais de mim e de me abrir a novas possibilidades de viver, de estar no mundo, de um jeitinho um pouco mais humano, um pouco menos capital, aonde o efêmero tem a razão de existir e de VIVER!

 

Erika Cunha