Imago – uma lua n’água… Ribeirão Preto, por Erika Cunha

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Hoje, decidi, pela primeira vez, escrever sobre o mais recente espetáculo de palco do qual faço parte Imago – uma lua n’água. E, como já puderam perceber no post anterior, permito-me nesse espaço do blog, divagar sobre coisas que estão escondidas no fazer artístico, que talvez não tenha importância acadêmica (já que sou doutoranda em artes), mas que de certa forma, ‘fazem parte’ e permeiam o fazer artístico. Os conflitos, os amores e a dores de nossa profissão.

O espetáculo foi criado em 2014 (só lembrar-me desse ano, já dá arrepios na coluna… rsrs). Mas, hoje vejo a importância das experiências vividas e o quanto fazer a Cozinheira Leonor nesse barco conta um pouco de mim nesse período de 16 meses entre 2013 e 2014.

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2014 foi um ano de alquimia, de dosagens, de experimentos: uma pitada a mais, uma pitada a menos… Experimentos alquímicos em meu próprio corpo. Enquanto isso, os ensaios rodavam, eu rodava, minha cabeça rodava… Não compreendia o passar do tempo e muito menos aceitava a intensidade das coisas que eu vivia. Queria poder me revoltar, sem sentir culpa, sumir no mundo… mas o Matula me chamava… E o Imago acontecia…

Imago = s.m. ou f. Forma definitiva do inseto que emerge da pupa ao final do terceiro estágio de metamorfose de sua vida, e na qual se define seu sexo.
Psicanálise Imagem ou fantasia de uma pessoa, carregada de valor afetivo. (Formada na infância, é projetada mais tarde sobre certas pessoas do meio ambiente.)

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Eis que, nesse sábado, durante a décima apresentação, que aconteceu no Teatro Minaz em Ribeirão Preto, eu me dou conto que não é por acaso que sou Leonor, a cozinheira, a alquimista do barco: um pouco mais de ervas, uma pitada extra de levotiroxina, um pouco mais de paciência, uma dosagem extra de perdão, uma dose mais severa de iodo, uma receita infalível, gotas de óleo de coelho. Em 2015, peneirar tudo num fino tamis de seda e deixar escorrer, o que filtrar é a essência de tudo… e a essência de tudo talvez seja o inominável, o que está além da compreensão lógica. É ser sendo, se construindo, se revendo, se refazendo.

E, emociono-me com os textos de meus companheiros em cena. E, escuto pela primeira vez, aquilo que não suportaria antes escutar. E, descubro que o trabalho de ator nunca morre, nunca para. Rever-se, refazer-se, revisitar-se.

Vomitar coelhos…

Vomitar: expurgar de dentro de si aquilo que não se pode mais segurar, aquilo que deve ser livre no mundo, aquilo que não deve ser digerido ou ainda o que deve ser transformado… Limpar-se para transformar.

Diz o Peixe:

O conto é assim.

Essas coisas irracionais em que nos metemos.

Alguns sustentam que tem a ver com os coelhos. Eu sustento a tese que fala sobre a solidão. Esta não é uma história sobre a morte. É uma história sobre o inexplicável.

(…)

Um lapso de tempo. Quem disse que um minuto cabe em uma hora? Quem disse que sessenta segundos são um minuto? As tensões entre aquilo que se quer, que se busca ou que se pode, muitas vezes não cabem num aquário. Yo sigo buscando…

Eu sigo buscando… sigo sendo a atriz, a doutoranda, a mulher, a mãe (de cães, de amigos, de mim mesma), a cozinheira, a filha, a amiga, a perversa, a boazinha, a que chora e a que rí.

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E assim, segue esse barco, cheio de intensidades, de portos seguros e às vezes de tempestades pelo caminho.

Mas, esse barco Matula segue e eu comemoro minha estada nele.

E eu choro, pra clarear mais a vista.

Erika Cunha