Com alegria, gratidão e um tanto daquela saudade que deixa um buraquinho no peito, partilhamos este texto belíssimo escrito pelo ator Eduardo Osório sobre a experiência do Projeto Circo K…

Circo K, eu estava lá!

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Aviso
Para um melhor aproveitamento das linhas a seguir, alguns esclarecimentos se fazem necessários. O Projeto Circo K era formado por três espetáculos diferentes, que eram apresentados em dias diferentes (sexta, sábado e domingo), no mesmo espaço, uma lona de circo. Eram eles, Um artista da fome, Na galeria e Gran Circo Máximo. Os dois primeiros tiveram adaptações anteriores, Mr. K e os artistas da fome e Galeria 17, respectivamente. Escreverei sobre essas duas adaptações anteriores por acreditar que o Projeto Circo K, de alguma forma, pulsava dentro delas. Também escreverei sobre minhas impressões sobre o espetáculo Gran Circo Máximo, do qual participei como espectador. Nos outros espetáculos participei como ator.
As linhas que conectam um espetáculo ao outro, assim como, as que conectam os artistas que participaram dessa aventura, são muitas e cada uma com sua singularidade. Aqui não farei mais do que um exercício de rememoração, não tenho nenhuma pretensão de esgotar o assunto, muito pelo contrário. Espero que outros relatos se somem a esse. De qualquer maneira, nas próximas linhas procurarei falar um pouco sobre o que ficou em mim dessa experiência

II
Uma outra forma de vida
Era o circo dentro do circo procurando ser circo: a captação de recursos, as alianças e parcerias, os convidados, a montagem da lona, os ensaios e as apresentações… todo o modo de produção que culminou no Projeto Circo K inspirou, legitimou e justificou sua existência, artística e socialmente. Ele foi o que foi por que foi feito da maneira como foi feito. Parece óbvio, mas é preciso lembrar. Se não fosse Barão Geraldo, a Unicamp, a rua Edna de Barros Sanches, as casas da Verônica, o austríaco que dava oficina em cinco línguas, o chileno que tocava bateria, as produtoras com ideais artísticos, o violão do Moacir, o biólogo saxofonista, os churrasco da Boa Companhia, o mágico que quis fazer teatro… se não fosse toda essa matula de teatro, seria outra coisa.
Era o circo dentro do circo procurando ser circo.
Fala-se tanto do fim da vida na terra, do fim de nosso planeta, que parece ser muito mais fácil pensar a nossa extinção, o nosso desaparecimento desse universo, do que imaginar uma forma nova, uma forma diferente de viver. No entanto, o inimaginável está aí, o inimaginável acontece todo dia em vários lugares do mundo.
Foi assim, o inimaginável aconteceu, fizemos o Projeto Circo K.

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Mr. K e os artistas da fome
Primeiro houve Mr. K e os artistas da fome, uma adaptação do texto de Kafka, Um artista da fome. (A versão apresentada no Projeto Circo K levava o mesmo nome do texto, mas nosso primeiro contato com o conto de Kafka foi por meio dessa adaptação.) A ideia de montar essa peça foi da Verônica, depois de um convite que a Boa Companhia recebeu após participar do Festival de Teatro Arena02, organizado pela Universidade de Erlangen, Alemanha, com Primus, uma adaptação do conto Comunicado a uma academia, também de Kafka. O convite era para realização de uma coprodução entre Brasil e Alemanha, nós éramos o Brasil, os artistas da universidade de Erlangen eram a Alemanha.
Voltamos para o Brasil e remontamos a peça em parceria com o Grupo Matula Teatro – mais uma de várias parcerias entre os dois grupos. Dentre as atividades que as bravas produtoras que nos acompanhavam conseguiram viabilizar, estava uma volta à Alemanha, dessa vez para Berlim, no Instituto RAW. Localizado num antigo pátio onde consertavam-se trens, no lado da antiga Berlin Oriental, era um espaço amplo com galpões antigos e alguns prédios de três andares. Lembro-me de uma frase dita pelo alemão que era o nosso contato no Instituto, quando nós questionamos se eles tinha condições de nos receber, éramos  um grupo de umas quinze pessoas. A sua resposta foi: Não se preocupem, somos feios, sujos, mas bonzinhos. A frase não dizia muita coisa, mas, depois, verificou-se ser de uma sinceridade comovente. Dentre as atividades que aconteciam naquele local, uma delas era oferecer abrigo para moradores de rua. Pudemos assisti-los atuando na peça A ralé, de Gorki. Repito, fomos para Alemanha apresentar Mr. K e os artistas da fome, uma adaptação feita pela Verônica e a Christina Hörig do texto de Kafka, Um artista da fome. Ver A ralé, protagonizada por moradores de rua berlinenses, com os olhos de quem estava envolvido na história de um jejuador que não interrompe seu jejum por que não encontra nada que o satisfizesse… Relembrando tudo isso, é difícil não tentar dar sentido, embalar essa experiência com termos bonitos e conceitos difíceis. O importante é que fui afetado como quem eu era, e revisito tudo isso como quem sou, isso basta! Só não é o bastante…

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Galeria 17
Depois do espetáculo Mr. K e os artistas da fome montamos Galeria 17. Sim, estávamos sob os auspícios de Kafka: “existe esperança, mas não para nós”. Adaptado de um pequeno texto – Na Galeria – do autor Checo, Verônica, mais uma vez ela, propôs a encenação do conto, que conta a história de uma pessoa que acompanha a apresentação de uma amazona de circo. Fala sobre a presença desse espectador, que se dá entre o sono e o despertar, que apoiado na balaustrada, à beira do picadeiro, acompanha fascinado as peripécias de uma bailarina e seu cavalo. Não sabemos se o espectador sonha com o espetáculo, ou se é o espetáculo que sonha com o espectador. Ao final ele chora sem dar por isso. Nessa época a Verônica fazia seu pós-doc em Portugal, e de seus contatos lusitanos nasceu outra coprodução, agora Brasil e Portugal. Ficamos em Lisboa, conhecemos artistas lisboetas e percebemos que, apesar de diferenças significativas, compartilhamos muito em relação à luta para manter-se autônomo e independente em nossa arte. Voltamos e, por aqui, a encenação algo introspectiva e onírica começou a incomodar pela desfaçatez com que se abria de forma a jorrar significantes em cima de um público sedento de significados. A solução na época foi introduzir a personagem do espectador, que até então tinha sido, sem cerimônia nem aviso prévio, entregue aos cuidados do público. Gostava da ideia de deixar o público nesse espaço entre, na dúvida se testemunhavam o sonho da diretora da peça, de um dos atores ou atrizes no palco, ou se era um devaneio dele mesmo. Mas a imagem nítida e inconteste do significado manteve-se irredutível, e acabamos por entregar ao personagem do espectador a incumbência de costurar todas as situações apresentadas e apresentá-las como obra sua. Mesmo assim ainda éramos, em cena, centauros, oráculos intermediando os sonhos do sono e os sonhos do despertar, ou simplesmente, um cavalinho de madeira cruzando o palco ao som do ranger de suas rodinhas.
Agora fico a perguntar-me: quando isso tudo foi, quem eu fui? Não encontro resposta para isso, entretanto, fui enquanto tudo foi…

Esses acontecimentos tiveram lugar entre 2003 e 2009. Em 2011 a Verônica – sempre ela – numa daquelas reuniões de produção sem as quais nada funciona e sem as quais todo mundo sonha viver, chegou com uma ideia de carne e osso. Sim, o novo projeto deveria ser de carne e osso, as atrações deveriam ser de carne e osso, os artistas deveriam ser de carne e osso. O encontro entre público e elenco tinha que acontecer naquele lugar que fica entre a carne e o osso. Onde isso poderia acontecer? Onde carne e osso podem se encontrar sem o constrangimento da carne viva, fresca, vermelha e do osso duro, cheio de cartilagem e restos de tendões? No circo!
É estranho sentir que isso que compartilho agora só existe por que eu estava lá, mas, ao mesmo tempo, sinto que quando estava lá isso não estava comigo… mas estava… sei lá.

V
Gran Circo Máximo
Em terceiro estava o Gran Circo Máximo, espetáculo do Grupo Matula Teatro, com uma carreira própria, de alguns anos antes de começarmos o Projeto Circo K. Era a história de um circo familiar de gente pobre, com tradição no picadeiro, mas sem lugar no mundo de hoje. Daqui de meu escritório posso ver algumas árvores balançando ao vento, imediatamente penso nas personagens desse circo. Elas são como os pequenos galhos das árvores à minha frente, que me dão a impressão de que, a qualquer momento, irão quebrar sob a ação do vento, no entanto, dia após dia, mantêm-se lá. Uma das personagens do circo estava em todo lugar mas nunca tinha seu nome dito, era a precariedade. A precariedade que exige o improviso, não o improviso cuja a principal característica são os meses de trabalho anteriores de preparação para que o improviso saia bem improvisado. Falo do improviso que a vida improvisada exige. O Grupo Matula Teatro optou por essa linguagem, um trabalho de pesquisa teatral sobre a precariedade. Proporcionou ao seu público uma representação composta por comportamentos e vozes que davam um nó no pensamento tecnocrata que se pretende gestor da vida em seus mínimos detalhes. A arte usa a técnica para subverter as configurações com as quais a realidade tecnocrata e sua racionalização da vida se apresenta: une a precisão da técnica com a precariedade da vida. Todavia é preciso fazer uma ressalva, nem toda precariedade está fadada ao erro e nem toda precisão é garantia de uma  aptidão superior. A vida burocratizada legitima-se ao oferecer garantia de precisão à vida. Embora ela se justifique em determinados casos, a vida não se resume a uma existência que pormenoriza cada aspecto dela e os avalia conforme a lógica de perdas e ganhos das relações mercantis. É preciso falar da precariedade da precisão, da nossa necessidade de limitar nossas experiências de maneira a dar forma reconhecível a elas, a necessidade de dar forma pelo pavor de ficar indelimitado. E é necessário mostrar a precisão da precariedade, de nossa precariedade que desavergonhadamente escondemos ignorando a suficiência que ela nos oferece. O Grupo Matula Teatro tratou disso ao nos apresentar esses seres que teimavam em existir, em resistir, nos fazendo perguntar: o que eles estão fazendo aqui? Vivendo numa situação limite. Não nos limites conceituais da arte, mas na beira do mundo artístico. Acredito que a beira, o limiar entre a Instituição Arte e a arte que procura escapar aos limites de sua institucionalização é o espaço possível para um processo de criação autônoma e independente. Mas a possibilidade real desse espaço existir depende de fatores econômicos, sem as mínimas condições de existência não há autonomia e independência em nenhuma atividade. Em o Gran Circo Máximo essa questões eram latentes. Testemunhávamos a beleza da resistência daqueles artistas e, ao mesmo, os limites de uma atividade artística carente das condições básicas de uma vida digna.
Devo ter dado a impressão de ter acompanhado a vida desse espetáculo de perto, mas esse não foi o caso. Porque não? Sei lá. E tenho certeza de ter um bom motivo para não saber, só não me lembro.
A gente esquece para ficar longe ou fica longe para esquecer?

Depois de escrever um pouco sobre o que lembro da história dos primórdios dos três espetáculos que juntos formaram o Projeto Circo K, quero contar um pouco de como se deu, em minhas lembranças, esse amálgama.

VI
Projeto Circo K

LGB_CircoK_2475Ato I
Um artista da fome
O projeto Circo K começou tendo como ponto de partida o circo no qual o artista da fome se apresentava, como escrito no conto de Kafka. Mr. K era o dono do Circo K, sua presença permeava todo o espetáculo, ele anunciava todas as atrações. Porém, a ordem quem impunha era sua mãe, Mme. K., personagem que não existia na primeira adaptação que fizemos do conto, Mr. K e os artistas da fome. Entre essa primeira adaptação e a segunda, que levava o mesmo nome do conto de Kafka, Um artista da fome, houve muitas mudanças, tanto que aquilo que as conectava era bem menos nítido do que aquilo que as diferenciava. De qualquer maneira, algumas distinções precisam ser feitas.
Em Mr. K e os artistas da fome a ideia de circo era levada para reuniões científicas, empresariais, salas de cirurgia, onde o picadeiro transformava-se em plataforma de divulgação de saberes únicos proferidos por indivíduos especiais. Representavam as relações sociais engendradas e mediadas pela busca incessante de sucesso, seguindo, sempre, o mantra composto por comportamentos e vozes que traduzem as prioridades de uma sociedade que tudo avalia conforme seu valor de mercado. O circo, o dono do circo, os açougueiros, os artistas e o artista da fome, protagonista da peça, continuavam lá, mas essa primeira versão situava-os em meio a outras personagens e situações em que a palavra circo reluzia no seu significado pejorativo. Na segunda versão a estética do espetáculo, dos artistas, das atrações do circo seguiam as imagens circenses do início do século XX. Embora na primeira versão essa estética estivesse presente, acabava diluída em meio às cenas que se passavam em outros ambientes que não o do circo, do picadeiro.
Uma das diferenças fundamentais era o circo em si, a tenda nas cores amarelo e azul, com um mastro de sustentação, cordas e rebites, com arquibancadas de madeira, um tablado que formava o palco, luzes em seu interior e uma pequena bandeira em seu topo. O espaço-circo era uma personagem que engolia os artistas e o público. Nos fundos havia uma saída estratégica que os artistas utilizavam para diversos fins, sempre sem o glamour reservado ao interior ou a parte da frente do circo. O espaço-circo, a lona, pertencia ao espetáculo Gran Circo Máximo, mas acolheu os outros dois espetáculos com a mesma generosidade. Dentro dele havia um espaço destinado à banda – A banda! – que acompanhava toda peça, outra mudança em relação a montagem anterior. Dos inúmeros fatores que colaboraram para realização do Projeto Circo K, os artistas convidados, aqueles que não eram nem da Boa Companhia nem do Matula Teatro, foram decisivos para construção das cenas dos dois primeiros espetáculos, Um artista da fome e Na Galeria. Além da contribuição como atores e atrizes, a música para alguns deles era meio de expressão artística tão ou mais conveniente do que o teatral, isso influenciou igualmente os dois espetáculos. Dentre eles, um trouxe consigo a mágica: além do que acrescentou aos espetáculos, seus ensaios eram verdadeiros shows para todos nós do elenco e da produção.
O Circo era o epicentro onde se encontravam uma série de artistas que desfilavam suas habilidades repletas de um anacronismo comovente e, no meio deles, estava o artista da fome. Sua aparição, em carne e osso, sua presença no picadeiro era rodeada de mistério. Seu silêncio era profético. Ele parecia vir do futuro que pertencia àquele passado, representado pelos artistas e suas atrações. Esse era o anacronismo comovente dos artistas do circo. Os pequenos gestos do jejuador pareciam procurar alguma fissura, uma fenda no tempo-espaço do circo que propiciasse uma mínima interferência capaz de mudar o futuro daquele passado. Mudar o futuro, que estava do lado de fora da lona do circo. Procurar naquele passado outros futuros possíveis. Por outro lado o artista da fome já estava cansado e aparentava aceitar com resignação o fim de sua arte, carregando em seus magros ombros o mundo do lado de fora, o futuro que estava a sua espera do lado de fora da lona – a lona do espaço-circo da vida de carne e osso. O trágico dos artistas do circo consistia em também buscarem com sua arte essa fenda, como o artista da fome. Todavia não tinham disso a menor consciência. Não me entendam mal, essa busca era para eles fonte da energia vital que os impulsionava, mas, entregues a dramas familiares, personalidades narcisistas e problemas financeiros o que era questão vital passou a ser secundário. De qualquer maneira a fenda surgia, mas, para que ela se tornasse passagem, o limiar deveria ser cruzado.

Ato II
CircoK_0147Na galeria
Isso nos leva ao segundo espetáculo, Na galeria, espetáculo cuja primeira adaptação do texto homônimo de Kafka chamava-se, Galeria 17. Para mim o lugar desse espetáculo no Projeto Circo K se justificava por tratar-se de uma das experiências do artista da fome com a fenda, que de alguma maneira ele havia encontrado. Na galeria era o outro lado do circo apresentado no espetáculo, Um artista da fome. Ele foi capaz de transformar a fenda em passagem e encontrou-se diante de um espetáculo de sons e imagens. As imagens projetadas eram do acervo pessoal da Verônica, de quando ela esteve num circo, se não me engano no interior da França. Parte da trilha sonora era executada ao vivo, com o auxílio de um equipamento que nos permitia editar a música apenas apertando um botão. Depois que o público tinha se acomodado chegava o visitante, personagem da peça, ansioso e excitado, para assistir à apresentação da bailarina e seu corcel negro. Alguns dos personagens desse espetáculo participavam, também, do anterior – Um artista da fome , o que tornava possível ao público que tivesse acompanhado o primeiro espetáculo, reconhecê-los, muito embora eles não parecessem ser os mesmos. Muita coisa não parecia ser o que aparentava ser. A bailarina, que no início flutuava em cima de seu corcel alegremente, revelava-se, quando flagrada na coxia, humanamente desumana. O próprio corcel havia chegado de moto e tocava didjeridu (instrumento musical aborígene). O visitante que fora assistir o espetáculo, de repente, tornara-se o espetáculo. E havia o palhaço, sereno e atento, que nos ensinava a frugalidade necessária para enxergarmos as coisas para além do sentido que imputamos à elas. Quase negligente, era de uma sobriedade extrovertida. Parecia ter a capacidade de testemunhar o infinito da carne, antes de fatiá-la em pedaços com formas assimiláveis, o que costumamos fazer com nossa consciência e seus saberes. Ou seja, não acúmulo de conhecimento, mas a experiência de ser sem a necessidade de classificar e catalogar. Nossa soberba poderia por abaixo todo esse acontecimento com uma simples pergunta: para que serve tudo isso? Pronto: desinfeta-se, fatia-se, embala-se, divulga-se, vende-se, lucra-se e estamos prontos para figurar no obituário dos livros de estatísticas mundo afora. Mas, por outro lado, podemos ficar com o espaço-circo, esse lugar entre a carne e o osso, entre a objetividade inominável da coisa em si e a subjetividade das criadas verdades universais. Claro que estamos aqui no universo da apreciação estética, mas a força dessa experiência está na sua capacidade de aludir àarealidade ao mesmo tempo em que desorganiza as formas estabelecidas de perceber, pensar e agir que configuram as nossas relações nisso que chamamos de realidade. Ao final do espetáculo todo elenco aplaudia o visitante, interpretado pelo mesmo ator que fazia, na primeira peça, o artista da fome. E ele partia do Circo.

O visitante foi embora para o mundo, o mundo do lado de fora da lona. O mundo que um dia seguiu o ritmo das máquinas e, agora, flui no ritmo da informação digital, do intercâmbio de dados eletrônicos, dos dispositivos e seus circuitos eletrônicos. Mundo de uma realidade social desigual e injusta, onde a maior parte da população não tem direito à educação nem à saúde. E nós, a sociedade, seguimos tendo como ideal de ser humano o empreendedor, incentivando o individualismo pautado pelas disputas de mercado e justificando tudo isso por meio da ideia de meritocracia.  A meritocracia dos dados viciados em que os donos do poder, do capital, sentam-se em cima e arrotam, lá de cima, as benesses da lei de mercado. Lá embaixo passa de carne e osso, mais osso que carne, o artista da fome, que como visitante deixou o circo, mas o circo, mesmo sem ele, resiste.

Ato III
Gran Circo Máximo
O terceiro espetáculo manteve-se, até onde eu sei, na sua íntegra. Como disse antes, desse só participei como espectador. O espaço-circo, a lona azul e amarela era o que conectava ele aos outros dois espetáculos. O que de fato havia acontecido era que a lona do Gran Circo Máximo abrigou os outros dois espetáculos, quase como se estivesse acertando suas contas com o passado. Embora a ordem dos espetáculos do Projeto Circo K fosse: Um artista da fome, Na galeria e depois Gran Circo Máximo, da maneira como as coisas se organizam na minha cabeça, é como se fosse o contrário. De um sonho do Gran Circo Máximo nascesse Na galeria, que abriria um portal dando acesso ao espetáculo Um artista da fome. Seria algo mais ou menos assim:
Ao final do Gran Circo Máximo, quando a família de artistas deixava a lona e fechava o circo, seres sobrenaturais surgiriam nascidos da noite e começariam a preparar uma apresentação feita especialmente para uma pessoa, o visitante, que seria teletransportado para o espaço-circo. Os acontecimentos que se passariam ali, como num ritual de iniciação, preparariam todo o espaço-circo e o visitante para o grande evento, o próximo espetáculo, o magnífico Circo K, que tinha como principal atração, naquela noite e pelos próximos quarenta dias, um artista da fome.

VII
O Circo K e o Odradek
(Odradek é o título e um estranho personagem de um texto curto de F. Kafka)
É interessante esse trabalho de revisitar esses dias dentro da lona do Circo K. Minhas lembranças são de quem olhava de dentro, entretanto, agora, pareço olhar de fora. Mas olho de fora a partir de dentro, de minha memória, num exercício de rememoração. Ao falar da criação do Projeto Circo K recrio os três espetáculos que faziam parte dele. Mas não é um colocar algo onde não havia nada, pois ao invocar a presença do Circo K sou visitado por cores, formas, sons, pessoas, olhares, mãos, pés, cabeças, àa vezes figurinos veem em minha direção e o ator ou a atriz chegam depois, quando chegam. Parecem brincar comigo, são Odradeks, aparecem e desaparecem e estarão por aqui muito depois de mim. O perigo de acreditar na memória é tão grande quanto de não acreditar nela. O Odradek sempre visita nossas casas, ele pode ser assustador ou prazeroso, e ele, sempre, desaparece. É difícil dizer o que ele é ou do que é feito… mas quando ouvimos o som de folhas secas, pode ter certeza, ele está por perto.
LGB_CircoK_2696(1)Quando levantávamos cedo para montar a lona, quando a Alice já havia realizado seus estudos meteorológicos e escolhido o lugar onde ficaria a entrada do circo, quando o caminhão chegava e começávamos a desdobrar a lona, o espetáculo de carne e osso já havia começado. Hoje percebo que, como os sons das folhas secas que anunciam a presença do Odradek, ao olhar para o céu e para as nuvens para confirmar as previsões do tempo feitas no dia anterior, o Circo K já estava lá.
Agora, está aqui comigo e posso dizer, Circo K, eu estava lá.

Florianópolis, 29 de maio de 2020.
Eduardo Osorio