WhatsApp Image 2018-08-06 at 16.14.14Em 15 agosto, cerca de quarenta mulheres reuniram-se em uma sala no CIS Guanabara, em Campinas, para trocar experiências sobre projetos profissionais desenvolvidos no âmbito da economia criativa.

Fui convidada por Anna Kühl, uma das idealizadoras do projeto Mulheres em Rede na Economia Criativa, para compartilhar um pouco da experiência do Matula.

Foi uma noite de conhecer mulheres incríveis fazendo projetos criativos e inventando modos de existência em diversas áreas profissionais: tinha jornalista, doceira, cantoras, atriz, bordadeira, costureira, produtora cultural, entre outras.

Conectando-se em rede porque assim somos mais fortes e capazes de sobreviver às adversidades que fartam em tempos sombrios.

O texto a seguir foi (mais ou menos…) a minha fala no encontro:

Gestão Coletiva como (r)existênciaWhatsApp Image 2018-08-11 at 16.11.40

– Qual é o meu negócio?

Um grupo de teatro, sediado no interior do estado de São Paulo.

Importante dizer que estamos no interior porque esse contexto interfere diretamente em nossa existência/sobrevivência cotidiana. Porque estamos fora do alcance dos críticos e da grande mídia que legitima o que é produção artística de qualidade. Porque durante muito tempo estivemos fora do alcance das políticas estaduais para a cultura, que embora estaduais se concentravam – e ainda concentram, a gente conseguiu mudar isso só um pouquinho – basicamente na capital.

– De que maneira trabalhamos?

O teatro é essencialmente coletivo: só acontece na presença do outro. Mesmo um trabalho solo precisa de olhares. Diretor, iluminador, cenógrafo, figurinista, produtor. Então a gente aprende muito rápido – no teatro- que palavras como autonomia e independência não fazem parte do nosso vocabulário. A gente precisa do outro o tempo todo. A agenda de ensaios depende do outro, a agenda de reuniões depende do outro e dos outros. As minhas ideias deixam de ser o que eram assim que eu as verbalizo. O outro, os outros, se apropriam e transformam. E isso é bom. São sonhos sonhados junto. Nunca é exatamente do meu jeito, também nunca é exatamente do jeito do outro. É do que jeito que esse conjunto de ideias, de motivações, de desejos, de histórias, de sentimentos, de repertório, de saberes, tudo junto misturado produz naquele instante. E isso em todas as instâncias, da criação ao escritório.

– E o que a gente produz?

Espetáculos de teatro, intervenções de rua, cursos, eventos artísticos. Nenhum produto tangível, que se possa levar pra casa e mostrar. Nada que se possa dar pra alguém.

Produzimos experiências. Efêmeras e transitórias.

Trabalhamos incansavelmente na criação de universos simbólicos, produzindo imaginários. Sobretudo, produzindo imaginários que tentam propor desestabilizações, que convidam a olhar por outras perspectivas, que compliquem um pouco algumas certezas muito certas.

WhatsApp Image 2018-09-10 at 14.28.28Então, olha só que modelo de negócio viável: nosso produto é impalpável e de curta duração. Não dá pra pegar e o prazo de validade é mínimo. Ele também está sendo produzido fora do alcance dos isos e controles de qualidade que dão aquela credibilidade. Além disso, ele serve pra complicar, pra provocar, pra desestabilizar. E ainda por cima, tem um monte de gente envolvida na criação e produção. Então a gente precisa vender esse produto por um preço que não pode ser muito barato, porque tem uma grande equipe envolvida na criação dessas experiências efêmeras, intangíveis e complicadoras.

Confesso que uma parte de mim se sente meio picareta de vir aqui como exemplo de caso. Não posso dizer que é um modelo de sucesso. A gente está sempre sujeita às idas e vindas das políticas públicas, com altos e baixos, e muitos períodos de aperto e de não saber se vamos conseguir continuar. Uma existência na beira do abismo. Estamos sempre sujeitos às mudanças pessoais: um filho que nasce, uma doença que exige tratamento longo e intenso, uma paixão que ressignifica a vida de um e transforma a história de todos, enfim, a sensação de recomeço está sempre com a gente.

Ao mesmo tempo pensei, poxa! Desse jeito e com tudo isso, estamos há dezoito anos existindo. Então de alguma maneira esse negócio está dando certo.

Nesses dezoito anos já fomos cinco, sete, duas, três, quatro, seis, e agora duas de novo. Já tivemos vacas gordas e vacas magras. Já trabalhamos com verbas públicas, privadas, crowfounding. Já fizemos espetáculos de palco, de espaço alternativo, de lona e de rua. Já tivemos processos de criação longos e curtos, assim como diferentes formatos de cursos e oficinas.

– Sobre o coletivo, tema dessa fala:WhatsApp Image 2018-09-10 at 14.28.29

Se sermos coletivo nos deixa vulnerável à instabilidades muitas e torna nosso sustento mais caro e complexo, também podemos elencar algumas vantagens desse modo de produzir.

Sempre tem alguém com mais disposição e que dá aquele gás nos outros. Sempre tem alguém pra mostrar um outro ponto de vista. Sempre tem alguém pra dar uma ideia inusitada. Sempre tem alguém pra segurar o bebê quando a mãe já não aguenta mais. Sempre tem alguém pra ir com vc buscar o resultado da biópsia. Sempre tem alguém pra te levar ao aeroporto, mesmo que seja uma despedida difícil. Sempre tem algum que está com mais coragem naquele momento e em relação àquela decisão.

Sempre tem alguém que sabe uma coisa que vc não sabe. Sempre tem alguém que dá uma ideia horrorosa, que todos topam e que vc é voto vencido, e que no final acaba dando super certo. Sempre tem alguém pra te tirar dos lugares de conforto. Sempre tem alguém que está esperando vc chegar no horário combinado.

A escolha por um modo de criação e de gestão coletiva é uma opção por um modo de existência coletivo, em que qualquer tentativa de separar trabalho e vida pessoal, separar deveres e afetos, não fazem nenhum sentido. Esses aspectos da nossa vida estão juntos o tempo todo.

E, por incrível que pareça, essa existência na beira do abismo que é constantemente transformada pelas relações, é, justamente, a nossa grande força.Estar Atento

Alice Possani

#Matula18

#18TemposParaReAgir

#AçãoParaEstarAtento