Ao longo da trajetória do Matula, muitos já foram os parceiros artísticos e de produção que estiveram conosco em projetos, em processos de criação e em circulações de espetáculo.

Esses parceiros integram fichas técnicas e vez ou outra estão presentes em imagens compartilhadas em nosso site e redes sociais.

Mas hoje vou falar de uma parceria de longa data, que tem resistido ao tempo e que permanece há anos num território invisível: a relação com Eni Elis, artista visual e poeta, com quem mantemos trocas de correspondência e diálogos afetivos intensos.

Nos últimos cinco anos – ou talvez mais, que a nossa memória por vezes confunde as datas do calendário, sobretudo em se tratando de lembranças movidas por afetos e não por projetos com data de estreia e prazos de prestação de contas – Eni esteve por perto, sempre.

Eni3Suas cartas-presente-surpresa sempre trouxeram belezas inesperadas ao nosso cotidiano muitas vezes duro. Os momentos de leitura e contemplação dessas cartas escritas com palavras e imagens, como que abrem frestas no tempo-espaço e suspendem por instantes a correria e a dureza que muitas vezes pautam o dia-a-dia de um grupo de teatro.

Somos levados a uma outra dimensão, em que a poesia é a textura do tempo e as imagens nos transportam a territórios fantásticos e impensáveis.

É preciso confessar que demoramos muito para responder por correio às muitas cartas de Eni.

É preciso agradecer que – apesar do nosso aparente silêncio – as cartas continuaram a chegar.

Eni esteve muitas vezes em nossa plateia sem que a gente soubesse. Ou melhor: sabíamos depois, pela próxima carta.

Estivemos também plateia de Eni, contemplando seus desenhos numa exposição na Casa do Lago ou lendo poemas numa tarde qualquer.

5Nos conhecemos ao vivo em 2017, na surpresa de encontrá-la na plateia da defesa de tese da atriz Alice Possani, que incluiu no seu trabalho um desenho de Eni. Um desenho que apresentava uma mulher e uma janela, um corpo-mundo entrelaçado, um ser no mundo e sendo mundo.

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Toda essa introdução é para dizer que em junho desse ano dedicamos uma tarde para Eni, coletivamente.

Juntas, produzimos uma carta-presente que enviamos por correio.

Vivenciando – por nossa vez – o que Eni deve ter sentido tantas e tantas vezes: a angústia de lançar ao mundo convites, sem saber o que aconteceu depois.

Nós estamos acostumadas com a presença do público em ações artísticas em que há olho no olho, e agora tivemos que lidar com o desapego de produzir algo cheio de afeto e lançar ao mundo, sem expectativa de resposta e sem controle nenhum sobre nada assim que saiu das nossas mãos e ganhou trajetória livre das nossas interferências.

Será que ela já recebeu? Será que gostou? Será que os convites foram aceitos? Será que os convites eram ingênuos demais? Será que fez sentido? Será que foi extraviado? Será que…? Será que…? Será que…?

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Aprendendo sobre invisibilidades, expectativas e desapego.

Obrigada, Eni.

Matula TeatroSelo 18 Anos

 

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