Estar AtentoSozinha

A ação que vamos compartilhar hoje foi a primeira realizada sozinha. Compromisso assumido comigo mesma. Não tinha ninguém me esperando, ninguém pra saber se eu estava lá no horário combinado nem pra cobrar se o programa-roteiro-proposta estava sendo realizado da maneira como deveria estar sendo realizado.

Então o primeiro desafio dessa ação aconteceu nos debates internos entre ir e não ir: a dificuldade de abandonar as muitas demandas da artista, professora, produtora, articuladora e mãe para colocar-se em experiência durante quatro horas inteiras.

Ação para estar alerta. Para conectar-se com… os outros? O mundo? O espaço? A cidade?

O trajeto foi entre terminais de ônibus: Barão Geraldo – Vila União – Ouro Verde. E mais tarde o caminho inverso, depois de realizar algumas ‘tarefas’ no bairro do Ouro Verde.

barao geraldoA ação foi elaborada por Erika Cunha e dialoga com temas e estratégias que ela vem investigando no seu pós-doutorado.

Nesse exercício uma dificuldade cuja dimensão eu havia subestimado: desconectar-me do impulso de trabalhar pelo celular, de responder mensagens, de resolver demandas durante o tanto tempo que permaneci vila uniãodentro do ônibus.

Ouvi muitas conversas sobre doenças: endometriose, osteoporose, câncer da pâncreas.

Também ouvi sobre um senhor que morreu dez dias antes de completar cem anos.

ouro verdeE sobre a filha da moça que teve depressão pós-parto e ela teve que cuidar da filha, da neta, do genro e do marido. Que de vez em quando ela sentava na cama e chorava. Mas quem chorava mesmo era a neta, durante quarenta e cinco dias, o dia inteiro e a noite inteira. Gravidez difícil, com enjôo até a véspera e ainda por cima aquela doença do mosquito, que ela não lembrava o nome, e por isso a menina teve que usar repelente caro a gravidez inteira.

Também conheci diversas lojas de sapato no entorno do Terminal Ouro Verde, e em uma delas estourei uma bexiga vermelha e ganhei um saquinho de pipoca.

Vi o Circo Bremer instalado no estacionamento de um shopping, com uma imensa lona amarela com estrelas azuis. A parte de cima da lona estava cheia de poeira, e pensei no trabalho que é lavar uma lona de circo. Demorei-me desvendando os detalhes da montagem da lona, com parte amarrada em estacas e outras partes tracionadas em caminhões. Procurei os traillers, mas estavam fora da vista de quem passa de ônibus, provavelmente na parte de trás. O encantamento pela parte do universo circense que permanece fora do alcance dos olhares atentos do público.

De volta a Barão a sensação era um misto de conforto e cansaço.

Ação para estar alerta.

 

Alice Possani

#18TemposParaReAgir

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