Sair e voltar a casa.

Sair de si para tornar-se novamente Si.

Crianças Saharaui na Itália.

O meu encontro com o Povo Saharaui começou em agosto de 2007, em Padova/Itália, durante o mês de Agosto, período em que cerca de 10 mil crianças, dos campos de refugiados Saharauis na Argélia, estão espalhadas pela Europa, para fugir do calor arrebatador do deserto, já que as temperaturas nesse período do ano podem chegar até aos 50 graus, calor intenso demais para as crianças que podem sofrer muito com a desidratação e a desnutrição. Naquele momento, eu estava fazendo um curso no Via Rosse Teatro (com Norberto Presta e Sabine Uitz) e tinha como tema para uma pequena montagem “o exílio durante a ditadura militar no Brasil”. Entretanto, após esse inesperado encontro com essas crianças vindas de um campo de refugiados, o foco da minha pesquisa mudou, deixei o passado para contar uma história que ainda persiste.

Espetáculo “Exilius”

 Nesses cinco anos muitas coisas aconteceram. Encontrei muitas pessoas no meio do caminho que assumiram os riscos de construir o espetáculo “Exílius” (é só olhar a enorme ficha técnica que possibilitou fazer um ‘solo’. Sou muito consciente de que um solo não existe só, porque tenho comigo nomes incríveis que me ajudam e que me sustentam quando estou em cena: direção, dramaturgia, figurino, projeção, som, produção, tudo o que junto faz o que chamamos de ‘teatro’). No meio do caminho, por fortuna, veio a Associação Jaima Sahrawi e, agora, o Laboratório Cisco e  a Maria Farinha Filmes.

     Em 2011, trabalhei como voluntária por 2 meses como educadora e acompanhante de 15 crianças saharauis na Região de Reggio Emília, com a Associação “Jaima Sahrawiper una soluzione giusta e non violenta nel Sahara Occidentale”. Um belo momento para entrar cada vez mais no universo do sonho e dos desejos infantis trazidos com tanta euforia por esses pequenos ‘Embaixadores da Paz’, como são chamados. Dessa experiência ficou o desejo de retornar e de reencontrar cada um desses pequenos, cada olhar, cada gesto, que tanto alimentaram o meu trabalho.

Campo de Refugiados de Smara/Tindouf, Argélia.

   Nesse ano (2012), os grupos de cinema “Laboratório Cisco e Maria Farinha Filmes”, com o processo de criação do filme “Are We Doing Right?” (que trata de ajuda humanitária pelo mundo e a atuação de associações e ONG’s), procuraram-me para saber melhor sobre a história dos saharauis e da Associação Jaima Sahrawi.

     Pois bem, aqui, mais um ‘pacto’ foi feito para a realização e continuação da pesquisa: eu faria os contatos e traduções do italiano para as filmagens, daria uma assistência na produção dessa etapa do filme (Italia e acampamentos Saharauis), e como contrapartida partiria com eles nessa viagem. Afinal, desde sempre foi assim que o Exílius surgiu, a partir de pactos, de acordos, de parcerias sólidas e determinantes para sua existência.

      Assim foi feito. Partimos. Eles com o foco no filme e eu somente querendo sentir, desejando a vivência como algo intransferível. E, talvez seja esse o maior desafio do fazer artístico: permitir-se viver, vivenciar, escrever um diário completamente imagético, tornar-se objeto da próprio experiência. Eu, também, buscava compreender melhor a história desse povo que há 37 anos sobrevive no deserto, em situação de refúgio, separados de seu país por um muro com mais de 2.500 km, com soldados marroquinos armados e minas distribuídas em toda a extensão do muro.

Minas terrestres cercam todo o muro.

      Eu precisava romper com minha fantasia sobre o lugar, sentir na pele, na visão, no olfato, na audição aquilo que tanto imaginei, aquilo que era tão distante de mim fisicamente, mas tão perto no imaginário.

      Por isso, meu relato nesse espaço, talvez seja muito diferente dos outros quatro viajantes, durante esses intensos cinco dias no deserto. Para cada um, vivenciar teve o seu ponto de beleza e de estranhamento, mas certamente foi especial, como toda experiência é, em toda sua completude, porque da vida não se foge; do viver e do sentir, não se foge.

      Para mim, a marca mais profunda deixada pelos saharauis é que não estamos falando do que chamamos aqui de “pobres coitados”, pelo contrário, eles são fortes, são políticos, são éticos, são verdadeiros guerreiros, possuem uma sociedade organizada, com autoridades competentes, são alfabetizados (muitos falam mais de um idioma!) e, insistem: a ajuda que eles mais precisam é de uma resolução política que coloque um fim nesse conflito que se estende por anos. Eles precisam que o Brasil, por exemplo, reconheça a Republica Árabe Saharaui Democrática e  apoie o fim do conflito e a realização do referendo.

      Segundo Mohamed Jadad, membro do secretariado Nacional da Frente Polisario, coordenador Saharaui com a Minurso/ONU, “essa história é um escândalo para a história da humanidade”.

       Talvez, esse seja mais um dos problemas de colonização e descolonização, que corrompe, que ofende, que desabriga e que mata.

Nana Educadora Saharaui / Reggio Emilia

Eu penso nos saharauis todos os dias, com tudo o que não pude compreender, com tudo aquilo que não pude dizer, com todos os meus erros, com o medo de minha incapacidade diante de todas as injustiças que insistem em existir nesse mundo, com as fronteiras vistas como linha de separação, distinção e afirmação do preconceito e não como linhas imaginárias e mestiças, que deveriam exaltar a diferença, as identidades múltiplas dos povos viventes nesse chamado ‘Planeta Terra’.

     Pra finalizar esse post, deixo aqui um agradecimento sincero ao Grupo Matula Teatro (Alice Possani, Anna Kuhl, Bruno Cardoso, Melissa Lopes, Quesia Botelho, que sonham ao meu lado!), à equipe do espetáculo Exílius  (Norberto Presta, Ericson Cunha, Diego da Costa, Juliana Pfeifer, Silas Oliveira, Paolo Cattaneo, Lígia Brosch e Estudio Refeel), à  Associazione Jaima Sahrawi, ao Laboratório Cisco e à Maria Farinha Filmes, por compartilharem saberes!

   No Blog do Projeto Exílius, você encontrará mais informações e histórias sobre esse povo:  http://projetoexilius.blogspot.com.br/

Erika Cunha e a Equipe do Laboratório Cisco, que está fazendo um filme para a Maria Farinha Filmes/SP